Entrevistas

Luís Brito: “Tenho uma das profissões mais fascinantes que existem”

Luís Brito, o diretor executivo da Ycon, nasceu em São Tomé e Príncipe.

Filho de pais alentejanos, cresceu em Lisboa, estudou Gestão Hoteleira e licenciou‑se em Organização e Gestão de Empresas. Foi “por mero acaso” que chegou à área dos eventos. Estudava à noite e trabalhava durante o dia, em venda de espaço publicitário em revistas da especialidade e, mais tarde, numa empresa de recolha de informações comerciais. “Desde os 18 anos que, a par do percurso académico, quis ter uma experiência real do mundo do trabalho e foi assim que comecei.”

Passou pela Knorr Portuguesa, onde foi Product Manager e, mais tarde, Brand Manager – função com a qual teve de organizar uma reunião para a área comercial. A partir dessa atividade, em Monsaraz, ficou “apaixonado” pelas atividades de aventura. Dois anos depois, criou a Marketing Portugal, dedicada à gestão de informação e relação com o cliente, e na qual, no âmbito de um projeto, organizou alguns eventos. “Comecei a ficar com o ‘bichinho’”, conta. A Marketing Portugal foi, entretanto, integrada no grupo Euro RSCG Marketing Services e Luís Brito saiu da empresa dois anos mais tarde, para integrar a equipa na área dos eventos corporativos da Tuper – Turismo Alternativo. “Foi assim que entrei a pés juntos nesta área, com foco nos eventos de vertente formativa e com uma componente de teambuilding, construídos em torno de um conceito ou temática.”

Cinco anos se passaram até integrar a Desafio Global Ativism. “Nos 11 anos seguintes concebi e implementei eventos corporativos com um scope mais alargado e de maior complexidade: lançamentos de produto, reuniões de ciclo, viagens de incentivo, ativações de marca, entre outros. O fio condutor sempre foi o de construir uma narrativa que gere engagement com os participantes e veicule os objetivos e comunicação da marca”, explica Luís Brito, que há dois anos decidiu abraçar um novo projeto, na mesma área de negócio: a Ycon.

“Trabalhar com pessoas e para pessoas” é a grande fonte de motivação. “Criar expectativas, gerir momentos, gerar emoções. Construir uma narrativa em que os participantes do evento são os próprios protagonistas, fazendo‑os submergir na história, sem se aperceberem, para que a vivam a 100%.” Como se fossem protagonistas de um filme, “participando na construção da narrativa e, desta forma, tornando sua a mensagem da marca”.

“A arte da gestão on‑site desta ‘dança’ é o mais divertido e desafiante, é também algo impensável de realizar sem o apoio de uma grande equipa. E percebemos como as coisas mais simples podem fazer a diferença e marcar uma experiência. Sinto‑me realizado ao sentir e observar as reações e a felicidade das pessoas, que é o que torna estes momentos inesquecíveis”, acrescenta.

eventpoint revista eventos turismo de negócios

“Tudo é realmente possível”

Do que Luís Brito mais gosta nesta atividade é a criatividade. “Tudo é realmente possível! A constante procura de novas soluções e ideias.” O diretor executivo da Ycon gosta também da oportunidade de lidar com pessoas das mais diversas áreas e culturas, da “possibilidade de conhecer, viajar e experienciar” e de proporcionar “uma multiplicidade quase infinita de experiências”. “Sinto que sou um privilegiado e que tenho uma das profissões mais fascinantes que existem”, frisa, ressalvando que “tudo isto também se deve aos clientes que aceitam entrar nestas ‘viagens’, inovando e arriscando”.

Por outro lado, o “potencial desperdiçado” é do que menos gosta neste setor. E explica: “Muitas vezes os eventos são one shots, em vez de estarem integrados em planos de comunicação, interna e externa, mais abrangentes e continuados no tempo. Felizmente, tenho construído relações com clientes com os quais embarco em ‘viagens’ com continuidade e conseguimos criar linhas de comunicação prolongadas no tempo, com narrativas que envolvem os participantes ao longo dos anos e que evoluem com eles.”

Do currículo de Luís Brito fazem parte inúmeros eventos. O mais marcante prende‑se com a organização do European Central Bank Forum, na Penha Longa. “Estamos a falar de um evento muito estruturado, muito protocolar, que envolvia todas as forças nacionais de segurança, os media nacionais e internacionais, e no qual a margem para levar o cliente a arriscar é, à partida, mínima. No essencial, um evento muito exclusivo, mas onde a diversidade e a multiculturalidade são fatores chave.” Com todas estas condicionantes, “temos de ser mais ágeis e flexíveis para dotar o evento de criatividade e inovação; objetivos esses que foram alcançados”. Foi, por isso, “um projeto desafiante e marcante” e, “com muito profissionalismo, uma equipa dedicada, mas também com muito sentido de humor”, o evento decorreu com sucesso.

Mas há mais. Luís Brito recorda‑se de um lançamento de produto, que foi construído em torno de uma narrativa de transformação, e cujos participantes eram clientes B2B. Os convidados foram abordados, “com perguntas aparentemente aleatórias e inocentes”, na fase de pré‑evento, para a recolha de informação, com vista à customização da iniciativa. Depois, no próprio evento, os convidados envolveram‑se em vários níveis de transformação.

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“O evento foi um sucesso, houve um grande envolvimento e satisfação por parte dos convidados, as expectativas do cliente foram superadas e o impacto a nível comercial foi tremendo. Os convidados fizeram compras que superaram largamente qualquer expectativa. Este lançamento de produto tornou‑se, naquela empresa, um case study a nível internacional”, lembra.

Um momento que impressionou Luís Brito ocorreu em 2017, no final de um evento de vários dias com um grupo de 150 pessoas, na Barragem da Aguieira. “No último dia, via‑se uma névoa de fumo ao longe, pela manhã, mas nada fazia prever o que iria acontecer. O evento terminou com um almoço e o grupo saiu do hotel. O staff ficou ainda a concluir desmontagens. Uma hora depois do staff sair, o hotel estava completamente rodeado pelas chamas e sem comunicações. Correu tudo bem, ninguém esteve em perigo, mas foi uma situação que evoluiu de forma imprevisível e sem qualquer sinal de aviso”, relata. Este foi um “caso extremo”, mas qualquer evento tem imprevistos… “Faz parte da job description lidar com alterações e imprevistos e, ainda assim, garantir o sucesso dos eventos.”

São, assim, muitas as histórias para recordar e ao longo do processo de conceção dos eventos há muitos momentos divertidos a assinalar. “Momentos hilariantes nos eventos são infinitos...Mas, neste aspeto, os eventos são um pouco como Las Vegas: o que acontece no evento, fica no evento!”

Maria João Leite

Tags: Vida de Eventos, Histórias, Profissionais de eventos

22-06-2021