Opinião

A importância do associativismo

A formação do conceito está associada às organizações nas quais grupos de cidadãos têm a possibilidade de lutar e afirmar a sua identidade, constituindo um pilar decisivo na construção da solidariedade e contribuindo para o exercício da democracia e da cidadania.

A emergência do associativismo está relacionada com as condições sociais decorrentes da sociedade industrial, tornando-se ao longo dos tempos elemento dinamizador das comunidades e um importante factor de transformação e inovação social.

Em Portugal, o associativismo foi dinamizado durante o Estado Novo. Participar era uma forma de resistir à ditadura, de partilha de ideias e de dinamização de acções cívicas, mas foi sobretudo após o 25 de Abril que houve um grande crescimento das associações. Além deste crescimento, há que registar que as associações chamadas “ clássicas” se organizaram de modo mais diversificado ao nível das suas actividades e houve a criação de novos tipos de associações.

Em Portugal existem cerca de 65.490 registos relativos a associações, segundo um levantamento de dados realizado pela Secretaria Geral da Administração Interna, em 2011, tendo como fonte a documentação existente sobre esta matéria nos Governos Civis (período temporal 1835‑2011), entidades que detinham um papel regulador, no âmbito da aprovação dos estatutos e regulamentos das associações e que abrangiam diversas tipologias – instrução, saúde, recreio, beneficência, irmandades, confrarias, trabalhadores, religiosas, etc.

Assim, podemos afirmar que em Portugal existem muitas associações, mas somos o país que detém o mais baixo índice de participação por habitante. Apesar deste cenário, segundo Melo de Carvalho, em 2002, na obra “Associativismo, inovação social e desenvolvimento”, há um balanço positivo entre as que são criadas e as que desaparecem. Se as associações traduzem ao longo dos tempos uma força social tão expressiva e valiosa, tanto a nível económico, como social, porquê a falta de visibilidade numa sociedade cada vez mais mediatizada? Sendo as associações resultado do contributo de todos, por que razão estas não conseguem ser recompensadas com o apoio adequado por parte de quem regula estas matérias? Refiro-me em concreto ao facto de terem a sua subsistência económica através das quotizações e do financiamento do poder local, central ou político, sendo a intervenção estatal muito reduzida, uma vez que abrange um número muito limitado de associações.

Em relação aos trabalhos desenvolvidos nas associações, estes assentam no contributo dos colaboradores, que na sua grande maioria intervêm de forma gratuita, dando o seu tempo e conhecimento. Este contributo dos associados evidencia e representa valor económico e social, mas tem implicações a nível individual, pois acarreta disponibilidade do ponto de vista pessoal.

Considero o associativismo um fenómeno a ser estudado com maior detalhe e rigor. Há estudos que se debruçaram sobre a falta de adesão de novos associados, e outros sobre as dificuldades das associações em conseguir reter ou captar novos membros, mas ainda assim é preciso investigar muito mais. Por exemplo, quais os motivos que levam à desmotivação, ao interesse momentâneo que rapidamente se transforma em desinteresse, à forma de participação pouco activa, que quase se pode chamar de “passiva”?

Segundo o livro branco do Kenes Group ( 2015) sobre os desafios das associações para captar ou reter novos membros, estes devem- se em grande parte à crise económica, à demografia e à tecnologia. Sugiro uma leitura atenta deste documento pois o mesmo apresenta algumas conclusões muito interessantes sobre este assunto, e indica alguns comportamentos que podem ser adoptados pelas associações.

A APorEP – Associação Portuguesa de Estudos de Protocolo, não recebe subsídios e depende exclusivamente das quotizações dos sócios e das receitas arrecadadas com a organização de encontros como as Jornadas Internacionais de Protocolo. Graças ao empenho e esforço de uma equipa de associados, desde 2015 que conseguimos reunir todos os anos os profissionais desta área para refletir e debater temas que interessam a todos. As XII Jornadas Internacionais de Protocolo serão no próximo dia 16 de Novembro de 2017, no Auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa.

Como membro da Direção da APorEP gostaria de expressar que – não obstante concordar que a crise económica é hoje um factor determinante para o muito que se deixa de fazer, mesmo tendo vontade -, no que concerne à participação activa no associativismo, a falta de reconhecimento é o elemento mais penalizador, mais do que, por exemplo, a ausência de remuneração. A maioria dos associados portugueses são voluntários mas não se sentem recompensados porque consideram ser quase nula a visibilidade da sua intervenção e contribuição individual para o colectivo.

Acredito que através das associações poderemos intervir e ajudar a transformar o país, estabelecendo relações de parceria e de cooperação entre os diferentes poderes, sejam políticos, económicos ou da comunicação social. Acredito que podemos partilhar e manter os princípios de autonomia e independência. E, em forma de conclusão, partilho uma frase de um autor desconhecido: “O associativismo é um dos pilares da sociedade”. As associações precisam do conhecimento, do entusiasmo e das novas ideias de TODOS!
 

Angélica Jorge
Associação Portuguesa de Estudos de Protocolo

Tags: Protocolo, APOREP, Associações

10-10-2017