Opinião

Vida de Eventos

Quando aceitei o convite da Event Point para ser o editor convidado desta edição de abril nenhum de nós poderia imaginar o desafio que estaríamos a enfrentar no momento em que esta edição é publicada.

O tema que tinha escolhido, “Vida de Eventos”, procurava ser uma homenagem a todos os organizadores de eventos, fornecedores e clientes, que tinham dedicado a sua vida e carreira a esta causa. Causa porque a esmagadora maioria dos profissionais desta área não são simples fornecedores de serviços. Todos os que conheço, salvo exceções pontuais, mas sobre esses não reza a história, são de uma dedicação e profissionalismo absoluto. Acredito, sinceramente, que a maioria de nós encara cada evento com um espírito absoluto de missão que transcende horários, responsabilidades e, tantas vezes, vida pessoal.
 
Vida de eventos é chegar a casa com a família já a dormir e sair de casa antes da família acordar. É tomar um duche antes do sol ter nascido e pensar “eu até sei que vai correr bem, mas também sei o trabalho que vai dar para correr bem”; é comer o que calha quando calha; é ter uma carga de responsabilidades enorme em cima dos ombros; é ser mais exigente com o sucesso do evento do que, muitas vezes, o próprio cliente. E, dia após dia, fazer reset, começar de novo.
 
Poderá ser uma vida estranha para quem está de fora, mas quem cá anda gosta e tem muito orgulho no que faz.
 
Vida de eventos é a foto que partilho neste artigo. Uma sala, linda por sinal, vazia, com 5.200m2. Vida de eventos é entrar nessa sala vazia e acreditar, e fazer acontecer que, passadas 36 ou 48 horas, essa sala estará pronta para ensaios e para receber um evento fantástico, onde tudo tem que ser bonito e tecnicamente imaculado.
 
Nas formações e palestras que fui dando ao longo desta vida de eventos, andei anos a mostrar fotos dos eventos prontos, até um dia entender que, por muito deslumbrantes que possam ser, faltava‑lhes o contexto do antes, da sala vazia e do desafio que isso representava. Nada simboliza tanto a nossa missão como a foto desta sala vazia e a convicção de que dela conseguiremos fazer coisas aparentemente irrealizáveis. Se não conseguimos que os nossos filhos arrumem os quartos, ou fazer aquela mudança que há tanto tempo ambicionamos na nossa sala de 40m2, como acreditar que em 24, 36 ou 48 horas conseguimos tornar surpreendentes espaços que podem ser 130 vezes ou mesmo 250 vezes maiores?
 
Vida de eventos é acreditar que é possível fazer o impossível. Evento após evento, dia após dia.
 
O setor, tal como tantos outros, enfrenta neste momento o maior desafio da sua existência. Foi, por razões óbvias, um dos primeiros a suspender a sua atividade, em alguns casos por imperativo legal e, em muitos outros casos, por bom senso dos próprios profissionais do setor. Com um arranque de 2020 fulgurante a nível de trabalho alguém podia imaginar esta paragem súbita? Na ficção e no conforto dos nossos sofás já todos tínhamos visto pandemias, apocalipses zombies, e todo o tipo de cenários do fim do mundo, tal como o conhecemos. Quem conseguiria imaginar, nesses momentos, que chocaríamos de frente com esta mesma realidade?
 
Temos um copo meio vazio? Temos, obviamente, na paragem total da nossa atividade, nos desafios que isso representa do  ponto de vista dos negócios que gerimos, no desafio económico que isso representa para todos e, acima de tudo, no risco de saúde e de vida para todos e, em especial, para aqueles que nos são próximos.
 
Mas há um copo meio cheio no meio de uma  pandemia global? Acredito que há e que, para já, o nosso foco tem que ser nisso, senão vejamos:
 
‑ Um setor de eventos em Portugal unido, pela primeira vez, e dinamizado pela APECATE, associação do setor, e pela própria Event Point, para combater este flagelo partilhando entre todos informação e soluções.
 
‑ Fornecedores e profissionais do setor, de forma igualmente inédita, a colocarem, de forma concertada, os seus meios e  conhecimentos, ao dispor de hospitais e profissionais de saúde, dando uma resposta imediata, até agora, a todos os pedidos solicitados.

‑ Uma oportunidade, para quem passa a vida a correr, para pararmos, refletirmos, reinventarmos o que fazemos, emergindo, deste processo, melhores profissionais e desejavelmente melhores seres humanos.
 
É complicado e avassalador? É, claro que é, mas vida de eventos é fazer acontecer o impossível. É acreditar que os eventos são, e serão, uma ferramenta importantíssima de comunicação e motivação, e cá estaremos para fazer aquilo de que mais gostamos, com a dedicação e profissionalismo de sempre.
 
Num seminário de eventos, há uns anos em Madrid, ouvi Sebastián Álvaro, que dirigiu durante 27 anos um programa de televisão com expedições pelo mundo, onde no decorrer das filmagens tiveram, em diferentes momentos, seis mortos e vários feridos graves (ver wikipedia “al filo de lo impossible”), a perguntar à plateia: “No trabalho, tal como na vida, estão com as pessoas com quem iriam até ao fim do mundo”?

Estamos com as pessoas certas ao nosso lado? Mais do que o betão, os carros, os edifícios, os computadores, estarão sempre as pessoas. Neste momento peculiar para o nosso setor, de forte união, espero que todos possamos dizer isso. Este artigo, que deveria fazer um balanço de uma “vida de eventos”, transforma‑se assim num hino de confiança no nosso setor e nos seus profissionais. Um grito de guerra.
 
Que venha o desejado regresso ao trabalho, que vontade e energia o nosso setor tem.
 
Sempre tivemos e sempre teremos!
 
#somoseventos

Leia aqui a revista nº34
 
Pedro Rodrigues
Diretor‑geral da Desafio Global Events & Activation

Tags: Vida de Eventos, Editor Convidado

15-04-2020