A experiência de um micro-empresário do setor dos eventos habituado ao teletrabalho

31-03-2020

# tags: Covid-19 , Eventos

Acredito que o teletrabalho vai ganhar espaço nas formas de colaboração no futuro.

Como conciliar o teletrabalho com as crianças em casa? Sou um micro-empresário, fornecedor na área dos eventos e tenho bastante experiência no teletrabalho e no trabalho remoto. Para algumas pessoas este é o primeiro contacto com o teletrabalho, e garanto-vos, pode ser confuso.

O que fazer?

1 - Criar um espaço dedicado. Caso seja possível ter uma divisão própria para trabalhar, o “escritório”. Se não for possível então, uma parte da sala. Vamos ter chamadas, reuniões remotas, e precisamos de privacidade.

2 – Explicar. Estamos em casa, em família o que é ótimo, mas temos de trabalhar - Vamos fazer mais pausas, ter que criar alguns malabarismos, mas é importante explicar desde o início para que as crianças não sejam surpreendidas.

3) Manter rotinas. Trabalhar de pijama ou de roupa confortável é um sonho para muitos, mas pode prejudicar a concentração. Pode passar uma imagem incorrecta (postura, voz…).

4) Gerir tempo e tarefas. Já sabemos que vamos ser interrompidos. Segmentar tarefas e alocar períodos específicos de tempo vai ser útil (sestas, entretenimento, ou mesmo antes de acordarem).

5) Horários de contacto com chefias e colaboradores. Este modelo exige um grau de confiança elevado nas pessoas e processos.

Paciência, adaptabilidade, e organização são bons pontos de partida.

Auto-avaliação 

Para uns o teletrabalho pode estar a ser frustrante e para outros não… Acredito que o teletrabalho vai ganhar espaço nas formas de colaboração no futuro. Mas cada caso é um caso e neste momento auto-avaliar este tipo de trabalho impõe-se com uma grande dose de relatividade. Mas é um exercício que pode ser muito útil.

Fez-se em poucos dias, o que iria levar anos.

1 – Estilo de vida – um jovem de 30 anos, solteiro, que já vive em ambiente colaborativo remoto, encara esta fase como uma extensão do seu dia-a-dia. Uma família com 2 filhos até 10 anos que sempre trabalharam presencialmente e que trouxeram os PCs do trabalho à pressa, encaram esta fase totalmente diferente. Jogar os pratos de ajudar a estudar, ter um chefe à distância que espera que a produtividade seja igual, sem processos e a distrair os miúdos, não é teletrabalho. É desenrasque, e pode ser frustrante;

2 – Processos da Organização estruturados para teletrabalho – levar um PC para casa e ter Internet não é suficiente: que tarefas podemos desempenhar, quais as áreas impactadas, qual o fluxo, como resolver situações de não acesso, como comunicar intra e entre equipas, entre outros aspetos. Nas pessoas que “entraram” recentemente neste sistema com quem falo, noto muita indefinição. É normal.

3 – Qualidade das chefias – podemos ter o processo montado, condições logísticas e de hardware, e até suporte para as crianças, ou nem ter crianças, mas falta a qualidade na liderança.

Falta de comunicação, emails confusos e agressivos ou mal redigidos, ausência de respostas, falta de espírito motivador, exigências irrazoáveis (afinal sabem onde estamos), tornam este sistema um verdadeiro pesadelo.

4 – Qualidade e perfil dos colaboradores para o teletrabalho – raramente se fala, é quase tabu, mas nem todos somos bons.

E em teletrabalho, temos o território ideal para procrastinar, para “chutar para canto” e se aliarmos aos pontos anteriores, toda a organização se vai ressentir, criando nós em processos ou em pedidos.

5  – Objetivos mensuráveis – Parece óbvio, mas os objetivos devem ser na medida do possível mensuráveis. Devem continuar a existir indicadores, em tempos razoáveis e definidos, sob pena de andarmos todos à deriva.

6 – Diferentes ritmos de trabalhos nas empresas – A maior parte das empresas não está a laborar a 100%, algumas nem a 50%, outras perto do zero.


Ora isto não é o cenário habitual de teletrabalho. Seria de pensar que mais tempo daria para fazer mais. Não é obrigatoriamente assim.

Esta é uma fase intensa, de ameaças e oportunidades.

E cada caso é um caso. O espaço que temos, os horários que assumimos, são mais alguns pontos a considerar. Temos a motivação, a ansiedade, a falta de tarefas, e por aí fora.

Não nos frustremos numa má fase e não olhemos para este modelo como a salvação.

Vai depender agora e sempre da capacidade das Organizações e pessoas.

Colocar uma economia inteira em teletrabalho e dizer “está tudo bem” é uma perigosa utopia. Vale a pena auto-avaliar o teletrabalho de uma forma relativa, mas séria, casuística e contextualizada.


© Nuno Seleiro Opinião

CEO da Asserbiz

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