Opinião

Portugal na pole position MICE

O turismo e viagens foi um dos ecossistemas mais prejudicados pela crise pandémica.

Segundo dados da Comissão Europeia, o investimento necessário para a recuperação do setor, a nível da União, é de pelo menos 161 mil milhões de euros. Ainda que com uma quebra de 70% nas receitas, em 2020, e 11 milhões de empregos em risco, os indicadores de confiança dos consumidores evidenciam uma clara recuperação. Em fevereiro do corrente ano, 54% dos europeus afirmavam pretender viajar nos seis meses seguintes. A tendência verificada no ano passado reforça-se com 41% de cidadãos a querer viajar para outro Estado‑membro e 35% a dar preferência a um “staycation”.
 
Perante um cenário de quebras drásticas, há um fundo de esperança que deve animar todos os que trabalham direta e indiretamente no setor; a vacinação nos diferentes Estados-membros está a decorrer de forma positiva; a aplicação, no mês de julho, do certificado europeu covid-19 e a aprovação do Selo Sanitário Europeu (medidas de resto apresentadas em outubro de 2020, no Parlamento Europeu, no relatório que tive a responsabilidade de elaborar), aliados à tão ansiada ajuda europeia NextGenerationEU, fazem antever o início de um regresso à normalidade.
 
Qualquer uma destas medidas são garante de aumento da confiança do consumidor em viajar e participar em eventos e congressos. Segundo nos é dado a conhecer, a recuperação deste segmento prevê-se em 2022, caso se mantenha esta trajetória de coordenação com o certificado europeu covid-19 e avanço na vacinação e testagem.
 
A nível mundial, a adaptação na área de congressos e eventos foi extraordinária, nomeadamente pela utilização ágil das novas tecnologias e garantindo uma participação robusta em eventos de formato 100% digital ou híbrido. E engana-se quem pensa que os eventos virtuais são menos desafiantes do que os presenciais ou que se resumem a garantir que os participantes têm uma boa rede de internet. Há hoje acessos a sessões plenárias e breakout rooms, há interação entre os participantes e oradores, perguntas e respostas, gamification, exposição técnica ou reuniões individuais.
 
No ranking da Associação Internacional para Congressos e Convenções, Portugal encontra-se no top 10 mundial no número de eventos internacionais (342) e, na categoria cidades, Lisboa está em segundo lugar, com 190 eventos, ultrapassada apenas por Paris. Portugal tem as condições para continuar na pole position e a diferenciar-se no turismo através do segmento MICE.
 
O Governo português tem o dever de apoiar, gerir e promover parcerias acertadas entre público e privado, pelo turismo, a bem de Portugal. Seria uma forma de emendar a prioridade que não deu ao setor no Plano de Resiliência que apresentou em Bruxelas.
 
A União Europeia acabou por flexibilizar a aplicação dos fundos estruturais e de investimento, criou o programa SURE para apoiar os lay-offs, o Fundo para a Globalização de apoio ao desemprego (sempre que o Estado-membro o acionar) e apresentou o NextGenerationEU num montante de 750 mil milhões, para apoiar a recuperação verde e digital das economias nacionais.
 
Ainda que se espere ansiosamente por essa “bazuca” europeia, ela não é garante de desenvolvimento ou crescimento económico, servirá para colmatar parte dos danos desta crise. Mas se há serviços, processos e pessoas que merecem prioridade nas políticas públicas são as que direta e indiretamente trabalham no turismo.
 
Como demonstra a história, a retoma da economia não se fará sem o turismo.
 
Cláudia Monteiro de Aguiar
Deputada ao Parlamento Europeu

* Este artigo foi originalmente publicado na edição 39 da Event Point.

Tags: Opinião, Cláudia Monteiro de Aguiar, Europa, Retoma, Eventos, Turismo

19-08-2021